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Uso abusivo de álcool e os custos com internações hospitalares no Sistema Único de Saúde

Canal: Artigos

Francisco Julimar Correia de Menezes - Médico, Mestrando em Saúde Coletiva da Universidade de Fortaleza – UNIFOR; Residente em Cirurgia Geral e Cirurgia do Aparelho Digestivo; Assistencialista e Coordenador do Centro de Ensino e Pesquisa do Hospital Geral Dr. Waldemar Alcântara; Docente do Curso de Medicina da Universidade de Fortaleza.

Hélcio Fonteles Tavares da Silveira Enfermeiro, Mestrando em Saúde Coletiva da Universidade de Fortaleza – UNIFOR, Especialista Nefrologia, Especialista em Unidade de Terapia Intensiva Adulto; Assistencialista do Hospital Walter Cantídio; Docente do curso de Enfermagem UNIFOR. membro do Núcleo de Estudos em Hipertensão – UNIFOR.

José Iran Oliveira das Chagas Júnior Enfermeiro, Mestrando em Saúde Coletiva da Universidade de Fortaleza – UNIFOR; Especialista em Cardiologia e Hemodinâmica, Especialista em Pesquisa e Inovação em Saúde da Familia; Assistente Técnico da Secretaria de Saúde do Estado; Docente da Faculdade Terra Nordeste; Docente da Coordenare - Cursos, treinamentos e consultorias; Membro do Grupo de Pesquisa Epidemiologia, Cuidados em Cronicidades e Enfermagem – UECE; membro do Núcleo de Estudos em Hipertensão – UNIFOR.

Luiza Jane Eyre de Souza Vieira. Universidade de Fortaleza – Enfermeira. Doutoura e Mestre em Enfermagem, Professora Titular do Curso de Enfermagem e do Programa de Pós-Gradução em Saúde Coletiva da UNIFOR. Assistencialista do Instituto Dr. José Frota – IJF

 

 

INTRODUÇÃO:

O uso abusivo de bebidas alcoólicas constitui importante problema de saúde pública em muitos países. Em dois levantamentos norte americanos, estimou-se que a expectativa de vida de alcoolistas nos Estados Unidos diminui em média 15 anos, sendo as causas de morte, em ordem decrescente: doença cardiovascular, câncer, acidentes de trânsito e suicídio; enquanto isso, o número de internações hospitalares por problemas relacionados ao consumo de álcool alcança 32%(HALME, 2010). O uso do álcool é muito antigo, alguns historiadores acreditam que a data aproximada seria de 6.000 a.C. Atualmente, o consumo de álcool atingiu proporções espetaculares. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que 2 bilhões de pessoas consumam bebidas alcoólicas e 76,3 milhões possuem o diagnóstico de transtornos, decorrente do seu consumo, além de ser o responsável por 1.8 milhões de mortes anualmente(LARANJEIRA, 2007). Nesse mesmo país, a prevalência de alcoolismo atinge em torno de 10%; na América Latina, é de 23%; no Brasil aproximadamente 9% da população sejam dependentes do álcool; 74,6% já fizeram uso na vida (80,4% na região Sudeste), 29% são bebedores pouco freqüentes e não fazem uso pesado e 24% bebem freqüentemente e pesado. A identificação de fatores associados potencialmente modificáveis permite calcular o impacto de intervenções de cada fator na redução das internações hospitalares, quando o funcionamento da rede de atenção básica for adequado, menor será a proporção de internações por condições sensíveis(MORAES, 2009) A proporção de dependentes de álcool em relação ao uso na vida, é de 20% para homens e 10% para mulheres. Nos Estados Unidos, o gasto com o uso de tabaco, álcool e outras drogas atinge 238 bilhões de dólares por ano, sendo 98,6 bilhões gastos com o uso de álcool. Vários são os fatores que podem levar ao aumento do consumode bebidas alcoólicas na população, entre eles, a fácil disponibilidade, o baixo preço e a publicidade(WHO, 2012). Além disso, a ingestão alcoólica é aceita socialmente, algumas vezes mesmo em quantidades consideradas abusivas, sendo utilizada como um facilitador de atividades interpessoais, em estabelecer vínculos sociais, e pode fazer parte do código de polidez em vários contextos. A quantidade de internações por condições relacionadas ao alcool pode mostrar a qualidade da rede de atenção ambulatorial bem como caracterizar as internações hospitalares e a possibilidade de identificar fatores associados à maior custos e freqüência de hospitalizações, a qual está relacionada em geral à maior gravidade e riscos à saúde(ANDERSON, 2008). O consumo abusivo e/ou inadequado desta substância pode trazer consequências graves, tanto em nível orgânico, como psicológico e social. Entre estas estão as ocorrências de lesões por causas externas, sobretudo acidentes ou violência, altos custos com internações hospitalares conceituadas pela “Política Nacional de Redução da Morbi-mortalidade por Acidentes e Violência” como o conjunto das ocorrências que matam ou geram agravos à saúde e que demandam atendimento(NOBILI, 2011). A doença hepática alcóolica costuma apresentar-se clinicamente dentro de um amplo espectro que vai desde esteatose leve até cirrose hepática descompensada. Os mecanismos fisiopatológicos para a progressão da doença não estão totalmente elucidados, porém se aceita que o surgimento de processo inflamatório intenso e fibrose peri-sinusoidal/pericentral, caracterizando hepatite alcoólica é etapa importante neste processo evolutivo; (RUBIO et al, 2010). Este presente estudo tem como objetivo analisar os custos em internações eletivas e de urgência no ano de 2013 no município de Fortaleza, por doenças do aparelho digestivo. 3 Metodologia Trata-se de um estudo descritivo, retrospectivo.

METODOLOGIA:

Trata-se de um estudo descritivo, retrospectivo realizado partir do banco de dados secundários disponíveis online no DATASUS ( www.datasus.gov.br), onde foram selecionados dados referentes ao ano de 2013 no município de Fortaleza, Ceará, Brasil sobre o custo total de internações hospitalares e caráter de atendimento para doenças do aparelho digestivo, exceto as de notificação compulsória e neoplasias, conforme o código internacional de doenças (CID-10). Os dados foram tabulados em frequência simples e percentagem através do aplicativo Excel. RESULTADOS E DISCUSSÃO: Para o ano de 2013, foi encontrado um valor de R$ 32.121.510,88 para o custo total com as internações do aparelho digestivo – excetuando as de notificação compulsória e neoplasias - em Fortaleza, Ceará, Brasil. Desse valor, R$ 20.095.003,32 (62,56%) decorreram de atendimentos em caráter de urgência, e o restante, 37,44%, correspondeu a internações eletivas. Dentre o valor total com as internações para o período, R$ 20.377.317,44 (63,44%) foram oriundos de doenças hepáticas, sendo que R$ 3.275.201,22 (10,20%) foram originados de doença alcoólica do fígado. A maioria das internações por doença alcoólica do fígado (67,48%) decorreu de internações em caráter emergencial, gerando um custo total de R$ 2.210.110,19. As de caráter eletivo responderam por 32,52%, resultando em custo superior a R$ 1.000.000,00. O grupo que corresponde às outras doenças do fígado (CID 10 K 76) engloba uma série ampla de diagnósticos, de diferentes etiologias, englobando doenças venosas, doenças de depósito, reações medicamentosas, entre outros diagnósticos. Entretanto, ressaltamos aqui o alto custo destinado para um grupo mais específico de afecções, arrolados no CID-10 como doença alcoólica do fígado (CID-10 K 70), as quais correspondem aos seguintes diagnósticos do CID-10: K 70.0 (fígado gorduroso alcoólico), K 70.1 (hepatite alcoólica), K 70.2 (fibrose e esclerose alcoólicas do fígado), K 70.3 (cirrose hepática alcoólica), K 70.4 (insuficiência hepática alcoólica) e K 70.9 (doença alcoólica do fígado sem outra especificação). No Brasil, o Ministério da Saúde possui uma política específica voltada para o atendimento integral dos usuários de álcool e outras drogas, a qual se destina a desenvolver um suporte adequado na atenção primária e o apoio à saúde de maneira integral e multidisciplinar através do CAPES - ad (BRASIL, 2003). Cerca de 20% dos pacientes tratados na rede primária bebem em um nível considerado de alto risco, pelo menos fazendo uso abusivo do álcool (BRASIL, 2003). Estas pessoas têm seu primeiro contato com os serviços de saúde por intermédio de clínicos gerais, na maioria das vezes em caráter de emergência, pois os usuários não reconhecem a atenção primária como porta de entrada para a resolução das suas demandas(CHAGAS & VASCONCELLOS, 2013). Nesse cenário nacional, os profissionais de saúde conseguem detectar a presença de acometimento de uso abusivo de álcool, gerando uma repercussão negativa sobre as possibilidades de diagnóstico e tratamento, uma vez que o ambiente da emergência não contempla adequadamente essas duas necessidades dos dependentes de álcool, sobretudo do ponto de vista multidisciplinar e de apoio psicológico(BRASIL, 2003). O foco da atenção está voltado para as doenças clínicas decorrentes da 4 dependência - que ocorrem tardiamente - e não para a dependência subjacente, reforçando a formação de ensino vigente focada na doença e não no doente, centrada no médico e hospitalocêntrica(NORMAN & TESSER, 2009). De 90 até 100% dos consumidores de álcool, considerados como de alto risco, desenvolverão esteatose hepática, de 10 até 35% terão hepatite e, entre 8 a 20% desses alcoolistas de alto risco evoluirão para cirrose hepática. De acordo com os dados nacionais, cirrose hepática em homens responde por quase metade dos casos de óbitos decorrentes de doenças gastrointestinais. Esses dados reveladores devem-se ao alto consumo per capita de álcool no Brasil. Ilustrativamente, houve um aumento de cerca de 100% nas vendas de cerveja de 1985 a 1995. Os brasileiros têm consumido algo em torno de 7.5 bilhões de litros de cerveja, o que representa 45 litros per capita (DA SILVA et al, 2006).

CONCLUSÃO:

O uso abusivo do álcool não repercute exclusivamente nos gastos de internações hospitalares (Costa e cols, 2010), mas nos transplantes hepáticos dos dependentes dessa substância (da Silva e cols., 2006). Deve-se ressaltar também: as inúmeras vidas ceifadas da associação álcool e direção (da Silva e cols., 2006), bem como entre agressão familiar e ingestão alcoólica, e de homicídios que envolvem indivíduos embriagados. Paira sobre essa situação uma dialética que vai além da efetivação de um programa nacional. Trata-se de redefinição de conceitos de formação e atuação profissional: romper o preconceito que distancia o profissional de saúde do dependente de álcool. Sair da exclusividade médica e dos aparatos tecnológicos hospitalares, passando a utilizar ferramentas diagnósticas e de tratamento disponíveis a todo profissional de saúde interessado a mudar essa situação. Transformar o usuário dependente de álcool e seus familiares em sujeitos participativos, captando suas resiliências e direcionando-as de forma que haja uma aproximação entre a estratégia saúde da família e essas pessoas, efetivando na ação primária o diagnóstico e tratamento, bem como recorrendo adequadamente aos demais níveis de assistência quando necessário.

REFERÊNCIAS:

BRASIL, M.S Política do Ministério da Saúde para Atenção Integral a usuários de álcool e outras drogas/ Ministério da Saúde, Secretaria executiva. Coordenação Nacional de DST/AIDS. Brasília: Ministério da Saúde, 2003. CHAGAS, H.M.A.C.; VASCONCELLOS, M.P.C. Quando a porta de entrada não resolve: análise das unidades de saúde no município de Rio Branco. Acre. Saude soc. [ online] . 2013, vol. 22, n. 2, pp. 377- 388. COSTA, J.S.D. et al. Prevalência de internação hospitalar e fatores associados em Pelotas, RS. Rev. Saúde Pública [online]. 2010, vol. 44, n.5, pp. 923-933. GUAL, A.P.; COLON J.A.. Alcohol y atención primaria de la salud: informaciones clínicas básicas para la idetificacción e el manejo de riesgos y problemas. Washintong, D.C.; OPS, 2008. HALME, J.T. et al. Alcohol consumption and all – cause mortality among elderly in Filand. Drug Alcohol Depend , v.106, n. 2-3, p. 212-218, 2010. LARANJEIRA, R. et al. Levantamento Nacional sobre os padrões de consumo de álcool na população brasileira. Brasília. Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD); 2007. MORAES, J.Q. Hospitalizações por intoxicação medicamentosa na rede pública do Rio Grande do Sul, 2002 – 2004. Porto Alegre, 2009, 26 p. NOBILI, V, CARTER – KENT C, FELDSTEIN, A. E. The role of lifestyle changes in the management of chronic liver disease. BMC Med England. 2011. NORMAN, H.A.; TESSER, C.D, Prevenção quaternária na atenção primária à saúde: uma necessidade do Sistema Único de Saúde. Cad. Saúde Pública [ online]. 2009, vol. 25, n.9, pp.2012 – 2020. PEREIRA, M.O. et al. Efetividade da intervenção breve para o uso abusivo de álcool na atenção primária: revisão sistemática. Rev. Bras. Enferm. [ online]. 2013, vol 66, n.3, pp. 420 – 428. RUBIO, G. et al. Efficacy of physician – delivered brief couseling intervention for bringe drinkers. Am. J. Med. 2010: 123(1): 72-8. SILVA, A.S. et al. Chronic liver disease prevention strategies and liver transplantation. Actua Cir. Bras. [online]. 2006, vol. 21, suppl. 1, pp. 79 – 84. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Global information system on alcohol and health 2011. Geneva: WHO, 2011. Available at: Accessed on: 15 nov. 2012.